IMPOSTO COMBUSTÍVEL

PROPOSTO CONEXÃO:

transformando o ordinário

em extraordinário

Projeto de Júlia Solléro

Brasília nasceu no auge da era do modernismo, cujo símbolo maior era o automóvel. Indubitavelmente seu traçado é resultado da então nova forma de se deslocar pela cidade. Hoje em dia, 55 anos depois, nossa capital não é mais projeto sonhado mas realidade ocupada, revelando cada vez mais suas qualidades mas também excessos e carências. Dentre os diversos problemas que poderiam ser assinalados, um deles chama atenção justamente por sua invisibilidade até então: a enorme quantidade de postos de combustíveis concentrados no Plano Piloto, mais precisamente na Asa Sul e Asa Norte, em relação ao resto de Brasília (Conjunto Urbano Tombado).

 

O levantamento feito revela claramente a situação. São 66 postos nas duas Asas, sendo 34 unidades na Asa Sul e 32 unidades na Asa Norte. Quando comparamos o número de unidades existentes em uma mesma superfície da Asa Sul (+- 7,59 km²), com áreas centrais de outras capitais brasileiras, claramente muito mais adensadas que Brasília, os valores são sempre menores. Comparando com cidades cuja mobilidade urbana é altamente desenvolvida, como Amsterdam por exemplo, os valores são vertiginosamente menores, revelando claramente como mobilidade urbana de qualidade e a presença de postos de combustíveis nos centros urbanos são dois fatores inversamente proporcionais.

 

A própria população brasiliense já tem tomado consciência do número elevado de postos, quando, em fevereiro de 2015, protestou contra a instalação de um deles na Superquadra 315 norte, alegando “ter um posto logo ali”. Além disso vemos postos serem abandonados e fechados constantemente, sem que a ausência de um ou de outro cause prejuízo relevante para seus usuários. Não seria o momento adequado de repensar o potencial perdido em tais espaços? Transformar o ordinário em extraordinário.

 

Pela própria experiência de vivência em Brasília, com esta proposta não pretendeu-se encontrar um modelo ideal de posto a ser replicado em todos eles. Para se chegar à conclusão de novos padrões de ocupação para tais espaços, foram elaborados tipos de intervenções de acordo similaridades e especificidades dentre as implantações já estabelecidas atualmente. São 66 unidades de postos na Asa Sul e Asa Norte, distribuídos em duas grandes categorias de contexto urbano: os postos dos Eixos Rodoviários Residenciais, intitulados Eixinhos pelos brasilienses (adjacentes à rodovia que corta as duas asas ao meio, o Eixão) e os postos das Superquadras (internos à área residencial).  Cruzando limitadores projetuais originados de dificuldades de desenho urbano que temos atualmente na cidade, entrevistas in loco e observação intensa da dinâmica dos postos, as soluções apresentadas são exemplos de como a relação posto-cidade poderia ser transposta de uma situação de repulsão urbana para uma de maior conexão e integração.

Para o caso dos Eixinhos, entende-se que a dificuldade de acessibilidade por pedestres a tais espaços enrijece a proposta de novos usos. Não existe a possibilidade de cruzamento em nível, sendo esta possível somente por passagens subterrâneas a cada 500m, impossibilitando o livre ir e vir de pessoas. Por outro lado, atualmente existe grande potencial para que tais postos sirvam de apoio às atividades que ocorrem no Eixão do Lazer, quando, aos domingos, a extensa rodovia (+-14km) é fechada para uso exclusivo de pedestres.

 

Dados do PDAD de 2014 afirmam que, dentre os trabalhadores residentes do Plano Piloto, 89,14% deles trabalham no próprio Plano Piloto, e que, dentre os estudantes, 96,91% estuda no próprio Plano Piloto. Por isso, em relação aos postos das Superquadras, entende-se que estão fortemente relacionados a um fluxo diário de pessoas. São adjacentes a áreas residenciais, comerciais, institucionais, e principalmente se localizam entre os três grandes eixos de transporte público: Via L2 - Eixos Rodoviários - Via W3. Apesar disso, é interessante notar que quando se estabelece um raio de 300m de todas as paradas de ônibus dos referidos eixos, existe um vácuo de mobilidade exatamente onde os postos das Superquadras estão localizados. Tal situação levou à proposta de uma nova rota de microônibus, onde os pontos de parada seriam nos postos. Além disso, novas proposições voltadas para mobilidade urbana e apoio à dinâmica da cidade foram combinadas e sintetizadas.

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