Buscar
  • Coletivo MOB

MANIFESTO PELA REDUÇÃO DAS VELOCIDADES EM BRASÍLIA


Velocidades humanas para uma cidade humana

Ghost bike em homenagem ao Raul Aragão

Fonte: Foto tirada por Marcos Woortmann

No dia 22 de outubro de 2017, último sábado, perdemos o Raul Aragão, membro da ONG Rodas da Paz, ativista por uma cidade mais humana. Realizava trabalhos voluntários em prol de uma mobilidade ativa, de qualidade. Pregava a paz no trânsito.

Perdemos Raul enquanto ele ia para casa, de bicicleta, como sempre o fez.

Mais uma vida perdida nos asfaltos do DF. Em meio à comoção nacional, surge a pergunta: Quantos ainda serão até o final do ano? Olhando as estatísticas, percebemos que temos muito a avançar nas nossas políticas de paz no trânsito. De janeiro a agosto de 2017, tivemos um índice de 13 mortes de ciclistas. Média de mais de uma morte por mês. Pessoas perdendo vidas em função de uma política absurda que insiste no carro como meio de transporte principal das cidades.

Enquanto a Organização Mundial da Saúde recomenda 50km/h para vias urbanas, em Brasília temos o nosso gigantesco Eixão, que corta a capital com seus 80km/h. Diga-se de passagem, segundo contagens[1] realizadas pelo Departamento de Estradas de Rodagem – DER-DF, em 2007, cerca de 80.000 pessoas atravessaram o eixão em um dia, dentre elas, mais de 10.000 atravessaram pela via, ou seja, arriscando suas vidas. Dez anos passados desta contagem, e ainda não conseguimos cogitar em semaforizar essa via, afinal os carros que ali passam, não podem “esperar”. Dito isso, quantas vidas ainda se vão?

Em todo o DF, temos rodovias que se misturam com a malha urbana, mas mesmo assim têm velocidades altíssimas. Um estudo realizado pela OECD/ECMT Transport Research Centre mostra que em um atropelamento de pedestre a uma velocidade de 50km/h a chance do pedestre vir a óbito é de 83%, a 60km/h a chance de morte é 97%, já a 70km/h a chance beira 100%.

Probabilidade de lesão fatal para pedestre em atropelamento

Fonte: OECD/ECMT TransportResearch Centre: Speed Management report, Paris 2006 apud Opas.

Diagramação: Rodas da Paz

Sendo assim, qual cidade queremos?

A via L2 Norte, onde Raul foi atropelado, tem sua velocidade limite em 60km/h. Contudo, não é difícil presenciar motoristas em velocidades bem mais altas. Ao longo desta via, temos inúmeras escolas, faculdades, institutos médicos, igrejas. Ou seja, locais onde há crianças, jovens, idosos, pessoas com mobilidade reduzida, necessariamente atravessando a via. Não seria o momento em repensarmos a forma como nos locomovemos?

Precisamos urgentemente falar sobre a redução das velocidades! Vamos parar de reverberar o discurso de que Brasília foi uma cidade pensada para os carros.

Somos pedestres, ciclistas, somos pessoas!

Quando falamos em reduzir velocidades, muitos se assustam dizendo que isso acarretaria congestionamentos maiores. Mas isso é uma falácia. Explicamos o motivo. Quanto maior a velocidade em uma via, maior deve ser a distância entre os veículos para se frear um carro. É instintivo.Simplificadamente, advém de uma equação que considera o tempo de reação, o comprimento do veículo, e a distância de frenagem do veículo. Em condições IDEAIS, um carro médio a 90 km/h (25 m/s) precisa de 37 m para frear a zero, e a 70 km/h (19,44 m/s) precisa de 23 m para frear a zero. E, quanto maior a velocidade, maior a distância necessária para se frear o carro. Incluindo um tempo de reação e tomada de providência de um segundo, os valores sobem para 62 m e 42,44 m respectivamente.

Então, resumidamente, se os carros precisam manter uma distância possível de frenagem, então um carro a 90 km/h necessita de quase 50% mais espaço de pista do que um carro a 70 km/h para que se mantenha a segurança.

Isso significa que, quanto menor a velocidade, mais veículos cabem na via, aumentando o fluxo de veículos, gerando uma maior capacidade para a via. Ou seja, com a redução da velocidades, as ruas ficam mais tranquilas, seguras e evitam-se congestionamentos pois há uma distribuição mais proporcional de carros no sistema viário[2].

Por isso, chamamos a todos para pensarmos juntos em soluções plausíveis para disseminar essa ideia.

Uma mobilidade voltada para o transporte individual motorizado não pode mais ser regra. Não dá mais. Então vamos agora juntar nossas vozes, vamos clamar por justiça nas nossas ruas. Afinal, NÓS QUEREMOS CHEGAR EM CASA!

Fonte: Blog Brasília para pessoas

https://brasiliaparapessoas.wordpress.com/

[1]Departamento de Estradas de Rodagem do Distrito Federal - Estudo de segurança de pedestres no eixo rodoviário - Relatório Final -Brasília, julho de 2007, Disponível em: http://docplayer.com.br/11144462-Departamento-de-estradas-de-rodagem-do-distrito-federal-estudo-de-seguranca-de-pedestres-no-eixo-rodoviario-relatorio-final.html

[2] É possível entender mais neste simulador: https://www.hacklab.com.br/simulador-de-transito/


© 2020 por MOB