A prática do plantio na cidade chega ao Guará

19 May 2016

Segundo relatório da ONU, hoje mais da metade da população vive em áreas urbanas, 54% da população mundial está nas cidades e os números cada vez maiores dos índices de urbanização fazem crescer a demanda da produção de alimentos. Como uma alternativa ao sistema atual mecanizado dessa produção em áreas rurais e distantes dos grandes centros das cidades, o movimento de agricultura urbana pretende aproximar a produção das pessoas e incentivar um consumo mais consciente e natural.

 

Quem escuta por primeira vez o termo ‘agricultura urbana’ logo pensa que isso significa plantar na cidade. Bom, é isso, mas não só isso. Mais do que incentivar o plantio na cidade por meio de hortas comunitárias e florestas urbanas, por exemplo, o movimento é um conjunto de atividades relacionadas à produção de alimentos e à conservação dos recursos naturais em centros urbanos e suas periferias.

 

Espaços de plantio em meio a grandes cidades contribuem para a infiltração da água no solo, permitem que seu ciclo natural seja completado e diminuem o impacto das chuvas. Mesmo que existam muitas áreas verdes permeando zonas densas de edificações, seu solo muitas vezes compactado pela passagem de pedestres e carros não é tão eficiente para o escoamento de águas quanto um solo aerado de uma área de plantação.

 

A proximidade física dos alimentos em relação a seus consumidores diminui o gasto com transporte, quer dizer, não há necessidade de que um caminhão transporte da área de colheita para a fábrica que empacota, depois outro caminhão da fábrica para o mercado e nós irmos comprar no mercado. Quem consome pode plantar.

 

Pensando nos resíduos causados nesse processo de produção urbana, eles também são tratados como produtos e matérias primas em bom estado para outra atividade. Podem servir como adubação dentro do processo de uma composteira, podem ser reutilizados em receitas não convencionais como bolo de casca de banana ou até mesmo servem para consumo. Em Porto Alegre, por exemplo, os resíduos orgânicos de restaurantes são tratados para serem servidos como alimentos a porcos.

 

A segurança alimentar é uma das bases de defesa do plantio urbano. A ausência de agrotóxicos, substâncias químicas usadas nas plantações em larga escala para acelerar seu crescimento, além de questão de nutrição e saúde dos habitantes, contribui para uma alimentação mais natural que reduz os riscos de doenças como diabetes e hipertensão e, assim, diminui os gastos com saúde pública.

 

Além de poupar recursos, o envolvimento social e a oportunidade de capacitação de profissionais que esse ecossistema da agricultura urbana proporciona é investimento na economia. É o que acontece, por exemplo, em uma clínica de reabilitação em São Paulo. Os dependentes químicos ali internados aprendem a cuidar, gerir e empreender com a horta da instituição.

 

Em Brasília já contamos com muitos espaços da cidade dedicados especialmente ao verde que alimenta. A horta comunitária de São Sebastião, por exemplo, também conhecida como Horta Girassol, é considerada hoje a terceira maior horta orgânica do Brasil. Áreas com menor potencial rural e mais dentro de zonas densas de construções também têm sua vez, é o caso da SQN 416. Os moradores se organizaram e ocuparam uma porção de área verde pública onde atualmente se desenvolve a horta comunitária da quadra. A união deu tão certo que hoje em dia eles formam o Coletivo 416 Norte, que se tornou igualmente responsável pela prefeitura da quadra, promovendo melhorias que se estenderam para os demais espaços públicos da vizinhança: revitalização de jardins, das quadras de esportes, organização de eventos em datas comemorativas, etc.

 

Horta comunitária 416 norte

 

Horta comunitária Girassol em São Sebastião

 

Desde março desse ano alguns moradores do Guará tentam retomar o funcionamento da horta comunitária do bairro que já teve seus tempos de ouro. Em 2009, por iniciativa governamental a nível distrital, muitas hortas comunitárias foram implantadas em diversas Regiões Administrativas do DF, a do Guará foi uma delas. Detentos trabalhavam no plantio, produção, colheita e distribuição dos alimentos que eram consumidos em creches e escolas da região. Por um atrito político a administração regional resolveu paralisar as atividades e hoje a horta é um terreno abandonado.

 

A primeira reunião do grupo foi marcada via facebook, nem todos se conheciam mas a partir dali várias ações vieram. Uma das parceiras, estudante de ciências paralelas, compartilhou seu conhecimento e nos ofereceu um workshop sobre alimentação funcional com direito a degustação de sucos funcionais. A atividade foi realizada com o apoio do InCod-DF (Instituto de codependentes químicos do Distrito Federal), casa de apoio psicológico a familiares de dependentes químicos que funciona no espaço da horta do Guará. Para o instituto, a volta das atividades da horta é bem-vinda e tem forte potencial como ferramenta terapêutica aos pacientes.

 

Para se fazer mais presente junto aos moradores do bairro, o movimento de reativação da horta comunitária do Guará participou do evento ‘Lazer das Antigas’ em abril na praça da Qe 30. Buscando diversão e lazer nos espaços públicos, o grupo Confraria do Guará tem organizado frequentemente eventos na cidade para movimentar o cenário cultural e fazer as pessoas ocuparem a rua. Aproveitando o aprendizado adquirido no workshop de alimentação funcional foram distribuídos sucos para degustação como um pretexto de aproximação e divulgação da horta.

 

 Workshop de alimentação funcional na horta comunitária do Guará

Grupo de reativação da horta comunitária do Guará participa do evento 'Lazer das Antigas' no bairro

 

Mostrando preocupação com o verde do Guará além da horta, o grupo lançou uma campanha de proteção e cuidado com a natureza local intitulada ‘Adote uma planta’. Com a chegada do período da seca em Brasília as mudas plantadas pela Novacap, órgão responsável pelo plantio, podem não sobreviver. Se dermos uma mão, ou melhor, uma água, as mudas podem crescer fortes e retribuir nosso cuidado com uma boa sombra naquela calçada antes árida. O método de estocagem da água e rega automática proposto pelo grupo com o uso de uma garrafa pet pode ser visto aqui.

 

Mesmo com todo apoio da Administração Regional e Emater, ainda não foi possível iniciar as atividades de plantio na horta, a bomba de água precisa ser consertada. Decidiu-se, assim, continuar com a temática e trabalhar, por enquanto, com o plantio individual doméstico. Durante o evento Expomix Mães e Filhas, ocorrido em sete de maio, mudas foram distribuídas com informações de como cuidar das plantinhas em casa. Além de palestra organizada aos alunos do Ensino de Jovens e Adultos no Centro Educacional 01 no Guará.

 

MOB apoia distribuição de mudas a moradores do Guará na Expomix Mães e Filhas

 

 

Extrapolando o objetivo ambiental de cidades mais verdes e produtivas, a riqueza dessas atividades e de uma horta comunitária é proporcionar movimento e ocupação das ruas além de ser ponto de encontro e vivência comunitária. É justamente por acreditar nesse potencial transformador das relações urbanas que o MOB apoia e acompanha o movimento de reativação da horta comunitária do Guará. Para saber mais informações e acompanhar o que esses guaraenses estão aprontando fique de olho no grupo do facebook ‘Hortifruti Urbana, Jardinagem, Plantio e Manejo Guará-DF’.

 

Quer plantar com a gente? Entre em contato! 

 

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