Brasília e a soberania do carro

25 Jan 2016

 

Brasília, por ter muito espaço e não ter um solo subterrâneo ocupado com linhas de metrô e uma infraestrutura urbana mais elaborada, acaba sofrendo as consequências do não planejamento, e então a desculpa é sempre de que cabe tudo, dá pra duplicar, dá pra cavar, e assim seguimos com nossa cidade afundando em um buraco sem volta. 

 

O ciclista, o pedestre, o usuário do transporte público, deve ser encarado igualmente como um facilitador do trânsito de carros. Quando eles facilitam esses outros meios de transporte eles estão desafogando o trânsito insustentável de carros ocupados geralmente por apenas um passageiro. 

 

Mas o que vemos nesse projeto e em tantos outros de nossa cidade, é que o ciclista andar 300m, 600m, 1km, a mais que o carro não faz tanta diferença assim. Será que isso é realmente convidativo? E então vem a desculpa da segurança. Ciclista que usa a bicicleta como meio de transporte não vai ficar dando voltas pela cidade, ele vai acabar dividindo a pista com o carro por ser mais rápido e objetivo e a questão da segurança cai por terra. Ou as ciclovias, calçadas, e o melhoramento do transporte público urbano são pensados antes da expansão insana de viadutos, elevados urbanos e duplicação de vias, ou estaremos sempre tendo que adaptar esses outros meios de deslocamento, limpos, sustentáveis, humanos, no espacinho que sobrar para eles.

 

Brasília já tem 55 anos de reverência ao carro, e vemos espalhados pela cidade vários exemplos claros de erros cometidos por nossos governantes, urbanistas, que são repetidos em projetos atuais como aquele que vimos na quinta-feira. 

 

Passagem subterrânea de pedestres ? Meu deus. Isso não funciona e sabemos disso ! São lugar de sujeira, assalto, são de difícil acesso para cadeirantes, se encontram completamente depredadas. E não adianta falar que agora a largura é de 5 metros, pois se não existe demanda o suficiente continuarão vazias e consequentemente inseguras. As passagens não são visíveis por quem circula em nível pela cidade ( carros, viaturas, etc) , e os pedestres que se aventuram em sua maioria preferem não se arriscar nas passagens e trocam pelo risco da travessia em nível das pistas automotivas. 

 

Além das passagens, tem o problema dos viadutos. O mundo inteiro hoje em dia destrói os elevados urbanos e os viadutos devido aos prejuízos que causam à qualidade de vida na cidade, enquanto que em Brasília nós os planejamos para os próximos 10 anos.O caminho certo já foi traçado, porque precisamos errar para consertar? Os viadutos rasgam a terra e criam travessias intransponíveis para o pedestre e portadores de necessidades especiais, e exige que estes e os ciclistas tenham que dar uma volta enorme para contornar essas valas forçadamente implantadas. Um bom exemplo atual são as tesourinhas, onde vemos diariamente pessoas forçarem a passagem pelo Eixinho. Claro que elas não irão até a Comercial para atravessar a rua. Exatamente o problema que vimos durante a reunião, quando a ciclovia chegava nos viadutos sempre era necessário dar uma volta grande para seguir um caminho que poderia ser contínuo caso melhor pensado. 

 

Falta muito nestes governantes a capacidade de se colocar no lugar do outro, de testar o que se projeta, de planejar. O olhar é claramente o deles, exclusivo para o carro. Duvido que em algum momento algum daqueles projetistas tenha pegado uma bicicleta ou uma cadeira de rodas para testar o desafio que é o projeto que eles almejam para essas pessoas. 

 

Porque passagens de pedestres e sinais não são opção ? Porque não se constrói então uma ciclofaixa compartilhada adjacente à via? Porque não pensar na qualidade do ar, no incentivo ao uso de energias mais limpas, na melhoria dos espaços públicos? 

 

Essa obra pode melhorar o trânsito de automotores no curto prazo, mas isso só incentiva cada vez mais o uso do carro e desestimula os outros modais. A longo prazo o trânsito vai todo voltar e então mais e mais obras serão necessárias para sanar o problema. Investir na maior pluralidade de modais de qualidade é o que se mostra sempre mais vantajoso para as grandes cidades. Imagine você poder escolher qual meio de transporte melhor se adéqua ao trajeto que você precisa percorrer na cidade sem ter que se restringir a um único. Para trajetos curtos à pé, para médios de bicicleta, para longos o trem ou o metrô, para locais específicos o ônibus, para viagens e emergências o carro.  E as pessoas que não podem escolher ter um carro ? O que fazemos com elas ? 

 

Ou passamos a construir hoje a cultura das pessoas e não a cultura do carro, ou nem nossos netos ou bisnetos conseguirão ver uma cidade melhor. 

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