Praça para quem?

30 Mar 2016

Numa cidade comandada por eixos e setores, vazios e distâncias, padrões e repetições, é na composição CONIC - Rodoviária – Conjunto Nacional, onde se costuma ver uma imagem atípica na cidade: uma grande quantidade de pessoas transitando de um lado a outro, um caos em meio ao racional cartesiano de Lúcio Costa. Em seu Relatório para o Plano Piloto, cria no cruzamento dos eixos monumental e rodoviário, a plataforma rodoviária. Hoje, segunda casa para milhares de brasileiros que vêm  para trabalhar nos setores adjacentes, o centro de Brasília, é também onde encontra-se o Setor de Diversões da capital.  

 

No Relatório do Plano Piloto de 1957, onde estão as intenções do seu projeto, junto a croquis e descrições, Lucio Costa traçou as imagens que comporiam a nova capital. No encontro dos eixos monumental e rodoviário, onde estaria a plataforma rodoviária, seria o centro da cidade, dado tanto o seu caráter funcional, de ligação entre os vários setores, geográfico, de intersecção do traçado urbano, quanto simbólico, de reunião de pessoas. “Seria como a praça central em frente à igreja das cidades tradicionais, porém, essa seria fechada a oeste pelo setor de diversões, a nordeste pela casa de ópera e a sudeste pela casa de chá”*. 

 

Eis que na segunda-feira, (28), fui ao Conic (SDS) e me deparei com isso: uma via cortando a Praça Zumbi dos Palmares. Fiquei meio sem entender, primeiro pois estava dirigindo e não sabia mais o sentido da via. Segundo, pois me lembrava que a praça era uma continuação do calçadão do Conic, conexão entre o Setor de Diversões e o Setor Cultural Sul. Terceiro, porque esta praça é supostamente tombada. 

 

A praça, projeto de Maria Elisa Costa, assim como aquela em frente ao Conjunto Nacional, foi criada em 1977 após o 1o Seminário de Problemas Urbanos de Brasília (1974), onde foram denunciados os usos incompatíveis com o projeto de 1962, como a inexistência de bares e restaurantes voltados para a plataforma e a falta de tratamento paisagístico das áreas públicas e praças. Os desenhos das vias foram criados com o intuito de diminuir a velocidade dos veículos que ali circulam. Este conjunto faz parte da escala gregária de Brasília, reconhecida como patrimônio cultural da humanidade pela UNESCO em 1987, tombada como patrimônio histórico federal em 1990 e pelo Governo do Distrito Federal em 1991. Segundo o artigo 7 do decreto nº 10.829 de 14 de outubro e a portaria nº 314/92 do Iphan, seriam obedecidas as seguintes disposições:

 

I. A Plataforma Rodoviária será preservada em sua integridade estrutural e arquitetônica original, incluindo-se nessa proteção as suas praças atualmente implantadas defronte aos Setores de Diversões Sul e Norte;

 

Tecnicalidades a parte, eu me pergunto: Por que fizeram esta via? Que sentido faz isolar uma praça que, (infelizmente) quase não é usada, da passagem direta dos pedestres que transitam pelo calçadão do Conic e que tinham ao menos a possibilidade de usá-la? Ilhá-la de vez? Torná-la mais uma área verde, árida e vazia?

 

Nos cinco minutos que estive lá, ouvi 2 grandes freiadas, porque não existe visibilidade na curva, além de inúmeras reclamações de trabalhadores da região, dizendo que está muito perigosa a passagem. Não existe sequer uma faixa de pedestre entre o calçadão e a praça. Sei que praça não faz parte da cultura de Brasília, ou do brasiliense, mas já que ela existe, que seja de qualidade e com atrativos que permitam e incentivem a permanência e o convívio, ou ao menos que seja um elemento de conexão. Neste caso, não é nem uma coisa nem outra.

 

Acredito que, mais uma vez, isto faça parte do culto ao carro em detrimento do pedestre. Enquanto em outras cidades, os centros estão proibindo a circulação de carros, em Brasília, as poucas calçadas estão sendo invadidas por eles.

 

Eu acho muito engraçado aqui em Brasília como faz-se o que se bem entende, utilizando-se da carta "não pode porque é tombado" para justificar qualquer coisa. Ao que parece, só é "tombado" quando é conveniente.

 

 

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